fbpx

Brasileiros descobrem os robôs para ajudar em aplicações financeiras

Os Brasileiros descobrem robôs para investimentos através de inteligência artificial, saiba mais sobre esta tecnologia.

Serviços de investimento automatizado, baseados em inteligência artificial, ganham adeptos, mas mercado é pequeno comparado a outros países.

Autoria: Danylo Martins

Publicado no site Noomis Febraban

Montar uma carteira de investimentos diversificada não é tarefa das mais fáceis. Para quem não tem paciência ou tempo de pesquisar aplicações financeiras, uma alternativa é adotar um robô de investimentos. Conhecidos em outros países como robo-advisors (robôs consultores, na tradução literal), esses serviços ganharam força no Brasil nos últimos cinco anos. Ainda assim, é um mercado embrionário comparado, por exemplo, aos Estados Unidos, onde duas das maiores empresas especializadas, Wealthfront e Betterment, somam US$ 43 bilhões sob gestão.

Juntas, as três principais plataformas brasileiras –Magnetis, Monetus e Vérios– totalizam menos de R$ 1 bilhão sob gestão. A quantia seria maior não fosse a mudança de modelo de negócios da Warren, fundada por ex-sócios da XP, que iniciou a atividade como robô de investimento, mas do último ano para cá passou a se posicionar como uma plataforma digital de investimentos, com atendimento em escritórios físicos.

A cifra de R$ 1 bilhão corresponde ainda a menos de 0,02% do patrimônio da indústria de fundos, hoje superior a R$ 5 trilhões, conforme dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima). Apesar desse volume, o segmento de robôs de investimento tem oportunidade de avançar a passos largos num cenário que combina juros em patamar mínimo histórico e busca por melhores experiências ao investir, dizem especialistas.

Mas os serviços de investimento automatizado não estão sozinhos. Enfrentam a competição acirrada das plataformas abertas de corretoras e distribuidoras, independentes ou ligadas a grandes bancos. “Todos estão buscando entregar o melhor insight para o cliente, o advisory mais customizado possível, no tamanho justo, sem excesso, com agilidade e eficiência; e o mercado só vai chegar nisso com apoio de inteligência artificial” analisa Sérgio Biagini, líder para serviços financeiros da Deloitte no Brasil.

Investimento automatizado

Cada vez mais popularizada, a inteligência artificial (IA) é a base tecnológica para a construção dos robos-advisors. De modo geral, o conjunto de algoritmos automatiza cálculos e decisões, não apenas na alocação dos ativos, conforme o perfil de risco de cada investidor, mas também na gestão do portfólio ao longo do tempo –processo conhecido como rebalanceamento. Por exemplo, em períodos de turbulência, como o que estamos vivendo, os robôs ajustam as estratégias para navegar com mais tranquilidade em mares revoltos.

O engenheiro e físico Sergio Shmayev, sócio da BSG DuoPrata, empresa especializada em treinar profissionais do mercado financeiro para exames de certificação, lembra que a nova geração de robôs de investimento só foi possível graças ao avanço dos sistemas computacionais na última década, fruto de aportes feitos por gigantes de tecnologia, como Google, Microsoft e Apple. “São investimentos pesados nas tecnologias de reconhecimento de fala, percepção de comportamento dos usuários que usam o tempo todo tecnologia para realizar atividades diárias, como compras pela internet e uso de aplicativos, que têm gerado uma massa de dados comportamentais usados para que os sistemas aprendam mais sobre seus usuários.”

Para Biagini, da Deloitte, o mercado brasileiro está se educando para esse tipo de tecnologia e serviço. “Ainda tem bastante espaço não só para automatizar o atendimento, mas também fazer o acompanhamento e a gestão do portfólio em si”, avalia Biagini. Entre os maiores desafios no Brasil, diz ele, estão a educação financeira e a adoção de canais digitais.

São barreiras que começam a ser vencidas, principalmente se observarmos o crescente uso de celular e internet para transações financeiras. “O passo seguinte agora é gerar inteligência a partir dessa interação e, assim, uma melhor experiência; mas experiência está diretamente ligada à tecnologia.”

Segundo Luciano Tavares, CEO e fundador da Magnetis, os Estados Unidos foram pioneiros em robôs de investimento, há cerca de dez anos. Hoje, esse tipo de serviço gere em torno de US$ 250 bilhões no mercado americano, considerando tanto startups quanto grandes gestoras que adotaram o modelo nos últimos anos. “O Brasil está um pouco atrás, mas caminha bem”, diz o executivo, ex-vice-presidente da Merrill Lynch no Brasil, que decidiu empreender no segmento ao fundar a Magnetis em março de 2015.

Pioneira ao trazer o conceito de investimento automatizado ao Brasil, a Magnetis opera como gestora de patrimônio credenciada na Comissão de Valores Mobiliários (CVM), oferecendo cinco tipos de carteira, de acordo com o perfil do investidor. A partir de uma varredura feita pelos robôs com mais de 20 mil produtos financeiros, o recurso é alocado em diferentes tipos de aplicações, como fundos de renda fixa, títulos de crédito privado, fundos multimercados, ações brasileiras, ações internacionais e fundos de previdência privada.

Com R$ 400 milhões sob gestão e mais de 250 mil planos de investimento (a gestora não divulga número de clientes) montados desde o lançamento da plataforma, a Magnetis aceita aplicação mínima de R$ 1.000, com aportes adicionais a partir de R$ 100. Pelo serviço, a gestora cobra 0,4% ao ano, taxa que não inclui os custos de cada produto financeiro, também pagos pelo cliente. A cobrança total fica em 0,6% ao ano, garante Tavares.

Humanos e robôs, lado a lado

Para o executivo, é importante desmistificar o uso de robôs na criação e acompanhamento de carteiras de investimentos. “Os cálculos e a combinação entre ativos são feitos pelo robô porque é humanamente impossível, mas decisão em si é da equipe de gestão; nós sabemos cada regra que está nos algoritmos”, explica. Em outras palavras, os robôs não substituem completamente os seres humanos.

Recentemente, a Magnetis criou uma ferramenta que permite aos clientes criar diferentes objetivos, por exemplo, aposentadoria e viagem de férias, e alocar recursos para cada um deles. Além de dividir o patrimônio em várias “caixinhas”, os algoritmos também mostram a alocação geral do dinheiro. “O robô mostra as chances de alcançar cada objetivo e o investidor pode elencar prioridades”, conta Tavares. Em teste com alguns clientes, a funcionalidade será lançada em breve para todos os usuários.

O engenheiro de produção Rafael Bartolo Flores, 30 anos, conheceu o serviço de robo-advisor em 2018 por meio de um amigo consultor de investimentos. Começou a investir pela plataforma da Magnetis em março de 2019, com a carteira no patamar mais agressivo (nível 5). “A experiência até o momento foi excelente; a UX [sigla em inglês para experiência do usuário] do app é bem amigável e torna super simples investir em diversos produtos de uma só vez, mesmo com pequenos investimentos na carteira”, conta.

Nos últimos meses, com a forte volatilidade do mercado, ele sentiu que a carteira foi bem balanceada pelo algoritmo, reagindo “dentro do esperado” num cenário desafiador. Ao contrário de muitos investidores que, tomados pelo pânico, resgataram recursos de fundos e outras aplicações, o engenheiro aproveitou o momento para aumentar a posição com foco no longo prazo. “Hoje sou mais focado em construir patrimônio e conseguir um acréscimo na renda mensal”, explica ele, que divide seu dinheiro em quatro instituições: Magnetis, XP, Nubank e Itaú.

O empresário Murilo Cardoso, 40 anos, é cliente da Vérios desde 2016, quando a gestora mudou seu modelo de atuação para robô de investimento. Para ele, o maior benefício da plataforma é a facilidade de contratação e utilização. “Você preenche alguns formulários online e já está dentro. A partir daí é organização pessoal, disciplina e investimentos”, afirma. Com a carteira no nível mais arrojado (5), usa a Vérios para planejar sua cesta de investimentos com foco na aposentadoria.

O advogado Felipe Sotto-Maior, CEO da Vérios, lembra que o atendimento é feito por humanos, ainda mais em momentos que exigem sangue-frio e cautela para não tomar decisões precipitadas. “Na hora de uma crise, as pessoas precisam falar com alguém sobre o dinheiro”, observa. Na gestora, a equipe teve de se desdobrar, principalmente em março, para responder as dúvidas dos clientes.

Além do atendimento via chat e e-mail, a Vérios ampliou os conteúdos no blog, vídeos e lives para informar sobre o cenário e reforçar a manutenção da estratégia. “De modo geral, nossa recomendação foi não mexer na estratégia de investimento; para quem não queria seguir a regra normal, alteramos a alteramos a alocação, a pedido do cliente”, explica.

Além do atendimento via chat e e-mail, a Vérios ampliou os conteúdos no blog, vídeos e lives para informar sobre o cenário e reforçar a manutenção da estratégia. “De modo geral, nossa recomendação foi não mexer na estratégia de investimento; para quem não queria seguir a regra normal, alteramos a alocação, a pedido do cliente”, explica.

Segundo ele, poucas pessoas quiseram “disputar” com o Ueslei, o robô da Vérios. Ainda assim, a empresa perdeu 8% dos clientes, com queda de 3% no volume sob gestão. “Saíram clientes pequenos com contas criadas recentemente”, diz. Hoje, a Vérios gere R$ 360 milhões e os clientes investem, em média, R$ 150 mil –a gestora não abre o número total de clientes.

Juros baixos e diversificação

Para os próximos meses, o plano é incluir novidades na gestão das carteiras, diante do cenário de juros baixos, que veio para ficar no país. Também estão em fase de testes as carteiras de níveis 6 e 7, com possibilidade de adicionar novas classes ativos. Atualmente, o investidor tem acesso a uma cesta composta por títulos públicos federais e ETFs, fundos de índice que investem em ações negociadas na bolsa brasileira e nos EUA.

Hoje, o valor mínimo de aplicação é de R$ 12 mil (quem recebe convite pode começar com R$ 5.000), mas essa quantia dá acesso a um portfólio sem renda variável. Para ter ações no pacote, é preciso investir pelo menos R$ 25 mil. Ao contrário da Magnetis, a Vérios cobra um percentual fixo (0,95% ao ano), que inclui a taxa de gestão e os custos de cada produto financeiro.

Criada no fim de 2016, a gestora mineira Monetus opera por meio de quatro fundos de investimento próprios (crédito privado, debêntures incentivadas, multimercado e ações brasileiras), além de mais de 140 fundos de outras gestoras de recursos. “O robô tem sido uma porta de entrada no mercado financeiro porque simplifica as decisões de investimento”, aponta Daniel Calonge, CEO e cofundador da Monetus. Em um contexto de juros baixos, diz ele, a busca dos poupadores por melhores opções de investimento tende a ganhar mais força.

Calonge explica que o sistema baseado em IA analisa o objetivo do investidor e aloca os recursos conforme o perfil de risco. Não há um limite de níveis, mas cada cliente tem acesso a tipo de carteira. “Nós, gestores humanos, ficamos responsáveis pela escolha de cada um dos ativos e o robô, responsável pela alocação e rebalanceamento”, afirma.

Com R$ 185 milhões sob gestão de um total de 14 mil clientes, a Monetus planeja incluir novas opções de investimento até o fim do ano, como títulos públicos via Tesouro Direto, ações e debêntures. “O caminho dos robôs é ter 100% dos investimentos, mas sempre focando no cliente, sem ser uma plataforma self-service.”

O empresário do ramo de eventos Patrick Edouard Aldrigui, 45 anos, investe pela plataforma da gestora há mais de dois anos, depois de receber uma indicação de um amigo. Sua carteira é conservadora, mas ele diz que tem “dado algumas arriscadas” com apoio do consultor da Monetus. Hoje, seu principal objetivo é acumular patrimônio para a aposentadoria.

Cuidados

Para Bernardo Pascowitch, fundador e CEO do buscador de investimentos Yubb e diretor-executivo da Associação Brasileira de Fintechs (ABFintechs), os robôs de investimento oferecem transparência, custos menores e melhor experiência em relação aos fundos de investimento, por exemplo. O maior desafio é atrair as pessoas para um modelo digital, ainda mais se for um investidor iniciante. “As pessoas costumam ter insegurança e receio em investir em qualquer ativo”, diz.

Um risco, segundo ele, é o investidor delegar a responsabilidade para o robô, sem entender para onde vai o dinheiro, qual a composição da carteira, entre outros detalhes. Para Sergio Shmayev, isso é um erro. O professor cita estudo feito pelo psicólogo israelense Daniel Kahneman, vencedor do Prêmio Nobel de Economia de 2002. Segundo a pesquisa, feita nos EUA, “investidores que chegavam à terceira idade financeiramente saudáveis eram aqueles que possuíam regras para seus investimentos e se mantinham fiéis a essas regras, tanto na hora de investir quanto ao sair do investimento.

Vale lembrar que as plataformas de investimento automatizado operam como gestoras de recursos, em parceria com corretoras. Antes de começar a investir, a recomendação é pesquisar informações sobre a empresa no site da CVM, órgão que regula e fiscaliza o mercado de capitais.

Robôs variados

O advogado Luiz Macedo acredita no modelo de robo-advisor aplicado a diferentes tipos de instituição financeira. Com esse olhar, fundou em 2014 a startup Allgoo, que funciona como uma plataforma de robo advisor as a service (robô como serviço). A empresa cria robôs para bancos, corretoras, gestoras, agentes autônomos e outras instituições do mercado financeiro. “Evoluímos para uma lógica de open banking com APIs ajustadas para cada tipo de instituição financeira, podendo atingir diversos públicos”, explica.

A startup oferece tanto o conjunto de APIs (sigla em inglês para interface de programação de aplicações), quanto a automatização do sistema, assim como consultoria para a construção de projetos. Para construir os robôs, a Allgoo usa basicamente ferramentas de inteligência artificial (IA), robotização e machine learning (aprendizado de máquina). “Todas as ferramentas são próprias”, diz. Ao longo dos últimos anos, a startup já atendeu os bancos Sofisa Direto e Fibra, e as corretoras Coinvalores e Genial Investimentos, entre outros nomes.

A SmarttBot, criada em 2011, aposta no segmento de robo-trader, que são robôs que automatizam estratégias de operação em renda variável, com ativos e derivativos negociados na bolsa de valores. Ao contrário dos robo-advisors, esse modelo é para pessoas que operam no mercado financeiro, os chamados traders. Por isso, é necessário ter conhecimento sobre renda variável.

Fundada por três cientistas da computação e um administrador, a startup mineira nasceu dentro de uma incubadora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Inicialmente, o negócio funcionava como uma fábrica de software, com robôs e estratégias criadas para cada usuário, conta um dos sócios, Mateus Lana. Hoje, o cliente acessa a plataforma, configura uma estratégia de investimento e faz a conexão com a corretora onde tem conta –a SmarttBot tem parceria com as maiores corretoras com forte atuação em renda variável. Atualmente, a plataforma tem 15 mil usuários, em média, por semana –a empresa não divulga a quantidade total de clientes.

No ano passado, Lana e seus sócios montaram a Smartt Invest, ainda em versão de testes (beta) –em março, o sistema foi lançado oficialmente. Trata-se de uma plataforma que automatiza o investimento em ações por meio de carteiras recomendadas. Pelo site, o investidor escolhe uma das opções de carteira, define o valor que será aplicado e a alocação e o rebalanceamento são feitos pelos algoritmos da startup.

Aviso Legal: “Todos os comentários, alegações, ponderações sobre quaisquer informações relacionadas a Bolsa de Valores, são meramente opiniões dos colunistas e não devem ser interpretadas como recomendação de compra ou venda de nenhum ativo.”

Imagem padrão
Rafael Zambelli
Engenheiro, mestre e doutor. Professor Universitário e investidor há mais de 10 anos. Focado em Análise Fundamentalista e Técnica, criador do canal do Youtube Rafael Zambelli, além de investidor em startup's.
Artigos: 525

Deixar uma resposta

error: Todo o conteúdo do nosso site é protegido por código.